Edição 2 > Sexo
Barebacking - Vício, virtude, risco, prazer
Sexo sem camisinha faz prazer e moral trafegarem lado a lado em uma mesma rua circular: sem saída, pouco iluminada e que, geralmente, não leva a lugar algum, contudo, percorrê-la joga luzes que alimentam uma discussão necessária - desde que sem doutrinação ou convencimento. Afinal, não cabem julgamentos quando cada um sabe o que lhe assusta e o que lhe apraz. São escolhas individuais, fruto do livre arbítrio e merecem respeito, desde que feitas de modo consciente da dor e da delícia que podem representar
Jorge Tarquini
Responda rápido: O que você pensa sobre barebacking? Agora, responda com um pouco mais de calma: O que você pensa sobre barebacking? Talvez sua opinião seja a mesma nesses dois tempos. Fazer sexo anal sem camisinha: Prazer? Rebeldia? Insânia? Auto-afirmação? Suicídio? Se caiu no reducionismo de querer encontrar "a" resposta certa ou já tem a sua escolha e nem quer entrar no mérito da discussão, melhor virar a página. O convite que a DOM faz aqui é de outra natureza: nem demonizar nem glamorizar o barebacking e seus adeptos, mas ouvir os prós e contras e tentar enxergar de modo multidimensional os diversos ângulos dessa polêmica questão, que tem colocado em campos opostos gays de todos os matizes.
Esgotaremos o assunto? Não. Haverá consenso? Também não. Haverá mais compreensão, mesmo que não haja aceitação. O escritor Ricardo Rocha Agueiras, ao expor suas opiniões e assumir a preferência pelo sexo sem camisinha e defendê-la publicamente em uma entrevista ao Portal iG em 2002, provocou mais do que um terremoto no universo gay e nas tantas certezas sobre a Aids, no discurso da prevenção e de seu tratamento. "O sexo voltou para a idade das trevas", disse ele na ocasião, deixando claro que não defende que se deixe de usar camisinha. Porém, fez questão de colocar às claras o que alimentava o então recente movimento iniciado nos Estados Unidos em um artigo escrito em 2004.
"Sexo sempre representou para mim um forte ritual, não importa se de Deus ou do demônio. Algo do qual eu não podia fugir ou escapar - ou tudo voltaria ao que era antes dos anos 1960 e da pílula anticoncepcional, ou seja, o silêncio", explica Ricardo no artigo. Para os que efetivamente fazem parte do movimento bareback, ao trazer à tona as questões do prazer individual, da liberdade do sexo sem camisinha e da contaminação pelo HIV, discute-se, a uma só vez, coisas que são "proibidas". "Tudo o que é proibido, negado, escondido e camuflado não é trabalhado", escreveu. "Se não trabalho, não mudo nem encontro a melhor forma de lidar com isso. É assim com sentimentos considerados 'ruins' ou 'negativos' pela sociedade." E a questão chega ao seu ponto central: o que fazer com quem tem tesão por porra, por transar sem a borracha? Diante da negação da sociedade, o caminho mais fácil para saciar os desejos foi o da sala escura.
Às cegas, paus e bundas são guiados apenas pelo que se sente, ao menos para os que se mantiveram nas dark rooms da vida. E o bareback foi criando seus códigos: as festas de conversão, clubes de orgia, a classificação entre bug chasers (HIV negativo que se dispõe ao sexo sem camisinha) e gift givers (os soropositivos que se dispõe a contaminar um negativo) que entregam the gift (o vírus) em festas de roleta-russa (que misturam positivos e negativos).
Para os praticantes, o prazer da penetração anal, como ativo ou passivo, e o gozo sem barreiras são o que importa. E a Aids? Eles encaram a doença não mais como mortal, mas crônica, com tratamento com o coquetel. A contaminação, portanto, elimina o medo do próprio prazer em nome da naturalidade do contato total.
Será que todos os que hoje praticam o bareback o fazem por motivos racionais ou até filosóficos? Talvez não. Para muitos, trata-se apenas de uma escolha guiada pelo prazer, passando bem longe das questões do universo gay, dos seus direitos ou da discussão aberta da Aids e do que ela representa, especialmente para os homossexuais. Pedro (nome fictício), do Rio de Janeiro, hoje com 25 anos, afirma que pratica o barebacking desde os 14 anos - e contabiliza 50 parceiros eventuais desde então -, contra apenas dois namoros. "Fazer sexo sem camisinha é muito melhor", diz. "A sensação de liberdade é a melhor coisa do mundo. Não seria natural fazer sexo de outra forma." Preferencialmente ativo, Pedro admite freqüentar saunas e clubes de orgias e, sobre a associação da prática à promiscuidade, ele é taxativo: "É uma escolha individual. Ninguém é obrigado a transar sem camisinha. Transa quem quiser. E quem entra na chuva é pra se molhar", refere-se ao risco de contaminação.'"Se tiver medo, melhor nem transar assim. Agora, se fez essa opção, corra os riscos que ela possui."
Uma das razões pelas quais a discussão (ou a falta dela) sobre o barebacking enveredou para o simples "contra ou a favor", criando dois lados aparentemente irreconciliáveis e sem diálogo, é exatamente a aparente inconseqüência com a qual muitos homens se lançaram ao sexo sem camisinha. O aumento do contágio entre gays jovens dá munição aos que atacam a prática - apesar de os dados do Boletim Epidemiológico Aids/DST, divulgado em 21 de novembro passado pelo Ministério da Saúde, confirmarem a queda no número de infectados pelo HIV entre os homossexuais - em 1996, representávamos 29,4%, contando também os bissexuais; hoje, somamos 27,6%. Mesmo assim, o que chama a atenção é o fenômeno que envolve os mais jovens enquadrados nessas categorias e as comunidades dedicadas ao tema que se espalham por sites de relacionamento como o Orkut (o que, definitivamente, não significa que todos os que participam delas sejam efetivamente praticantes ou barebackers).
Sobre a maneira mais natural como hoje se encara o contágio pelo HIV, o técnico da área de prevenção do Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS do Estado de São Paulo, Alexandre Yamaçake, tem uma opinião. "Com a chegada dos medicamentos, hoje não dá mais para saber só de olhar quem tem ou não Aids", explica. "Foi o fim do estereótipo. As pessoas sentem-se mais livres para suas práticas, uma vez que ninguém suspeita nem precisa saber se alguém está ou não infectado." Alexandre destaca, porém, que junto com esse aspecto positivo da medicação veio a falsa imagem de que os remédios resolvem. "Além disso, ninguém fala dos efeitos colaterais fortíssimos dos anti-retrovirais - que ficará na vida do paciente ad eternum", reforça Yamaçake.Mas ele reconhece que, apesar de tudo, os praticantes do bareback têm consciência do risco que estão correndo, graças, em grande parte, às sempre presentes campanhas.
Do ponto de vista psicológico, além da "insanidade" que muitos acreditam ser o que move os barebackers, o que mais pode estar por trás da prática? Infelizmente, o preconceito e a compreensível reação de sigilo dos praticantes talvez estejam impedindo que trabalhos sérios sejam desenvolvidos nesse sentido, na busca de entendimento mais amplo desse fenômeno dos nossos tempos. Yamaçake, por sua vivência no CRT, arrisca apontar o medo da doença ("prefiro me infectar a viver na expectativa") e até a baixa auto-estima. Talvez ele tenha razão: já foram notificados casos, por exemplo, de mendigos que se contaminaram na simples busca de cidadania. Explico: sem direito a nada, a partir do momento em que contraem o vírus, passam a receber cuidados do Estado, viram cidadãos. No caso dos gays, é óbvio, a questão da auto-estima inclui um infindável rol de questões, que vão dos segredos da adolescência à clandestinidade sexual e, claro, ao preconceito da sociedade.
Klecius Borges, psicólogo que atua em Terapia Afirmativa para gays e lésbicas, consegue ir mais adiante, separando razões para o sexo sem camisinha - e não creditando tudo ao barebacking. Ele, que não acredita na sexualidade da psicologia do indivíduo, crê que muitos não se preocupam com a questão do contágio, mais preocupadas que estão com o prazer, sem ideologia. Os barebackers, segundo ele, têm uma ideologia, que é a prática sexual como posicionamento diante de uma realidade conhecida, que é a da doença. Sob o olhar das motivações, fugindo um pouco das convicções barebackers (que, segundo o artigo de Ricardo, "nunca foi um movimento"), e indo para a simples prática de sexo sem camisinha entre os gays, surgem ao menos quatro grandes "razões": a boa e velha "prova de amor", que leva gays, muitas vezes com problemas de auto-estima, a quererem "salvar" seus relacionamentos; a resignação diante do "inevitável" contágio; o gosto pelo risco, semelhante aos provocados por esportes radicais; ou o simples fato de preferir a sensação da penetração em pêlo. Certamente, há muitas outras mais ou menos questionáveis.
Do ponto de vista moral, a discriminação contra os gays ganha novo fôlego quando o assunto esbarra no barebacking. Afinal, seria "um mau exemplo". Voltando ao artigo do Ricardo: "Não acho que nós, homossexuais, temos de posar de bonzinhos e responsáveis pela saúde de toda a sociedade, nem de dar 'bons exemplos'... Não há um termo para héteros que não usam camisinha". Os números de héteros, inclusive mulheres casadas e, principalmente, adolescentes femininas infectadas, mostram isso. Se a comparação pode não ser feliz, basta lembrar de gays que fazem sexo oral sem proteção, e que também se expõem, e os que transam sem camisinha, mas que não assumem nem não são barebackers, e ficam na hipocrisia.
Voltando à pergunta inicial: O que você pensa sobre barebacking? Está mais do que na hora de se pensar nele de modo mais sério e aberto - mesmo que não se mude uma vírgula a opinião sobre ele, se a favor ou contra. Definitivamente, não é essa a questão. Os gays não querem mais ficar à sombra por causa de suas opções e preferências: já é tempo de rever conceitos. É hora de tirar a camisinha desse assunto e encará-lo na carne.
Esgotaremos o assunto? Não. Haverá consenso? Também não. Haverá mais compreensão, mesmo que não haja aceitação. O escritor Ricardo Rocha Agueiras, ao expor suas opiniões e assumir a preferência pelo sexo sem camisinha e defendê-la publicamente em uma entrevista ao Portal iG em 2002, provocou mais do que um terremoto no universo gay e nas tantas certezas sobre a Aids, no discurso da prevenção e de seu tratamento. "O sexo voltou para a idade das trevas", disse ele na ocasião, deixando claro que não defende que se deixe de usar camisinha. Porém, fez questão de colocar às claras o que alimentava o então recente movimento iniciado nos Estados Unidos em um artigo escrito em 2004.
"Sexo sempre representou para mim um forte ritual, não importa se de Deus ou do demônio. Algo do qual eu não podia fugir ou escapar - ou tudo voltaria ao que era antes dos anos 1960 e da pílula anticoncepcional, ou seja, o silêncio", explica Ricardo no artigo. Para os que efetivamente fazem parte do movimento bareback, ao trazer à tona as questões do prazer individual, da liberdade do sexo sem camisinha e da contaminação pelo HIV, discute-se, a uma só vez, coisas que são "proibidas". "Tudo o que é proibido, negado, escondido e camuflado não é trabalhado", escreveu. "Se não trabalho, não mudo nem encontro a melhor forma de lidar com isso. É assim com sentimentos considerados 'ruins' ou 'negativos' pela sociedade." E a questão chega ao seu ponto central: o que fazer com quem tem tesão por porra, por transar sem a borracha? Diante da negação da sociedade, o caminho mais fácil para saciar os desejos foi o da sala escura.
Às cegas, paus e bundas são guiados apenas pelo que se sente, ao menos para os que se mantiveram nas dark rooms da vida. E o bareback foi criando seus códigos: as festas de conversão, clubes de orgia, a classificação entre bug chasers (HIV negativo que se dispõe ao sexo sem camisinha) e gift givers (os soropositivos que se dispõe a contaminar um negativo) que entregam the gift (o vírus) em festas de roleta-russa (que misturam positivos e negativos).
Para os praticantes, o prazer da penetração anal, como ativo ou passivo, e o gozo sem barreiras são o que importa. E a Aids? Eles encaram a doença não mais como mortal, mas crônica, com tratamento com o coquetel. A contaminação, portanto, elimina o medo do próprio prazer em nome da naturalidade do contato total.
Será que todos os que hoje praticam o bareback o fazem por motivos racionais ou até filosóficos? Talvez não. Para muitos, trata-se apenas de uma escolha guiada pelo prazer, passando bem longe das questões do universo gay, dos seus direitos ou da discussão aberta da Aids e do que ela representa, especialmente para os homossexuais. Pedro (nome fictício), do Rio de Janeiro, hoje com 25 anos, afirma que pratica o barebacking desde os 14 anos - e contabiliza 50 parceiros eventuais desde então -, contra apenas dois namoros. "Fazer sexo sem camisinha é muito melhor", diz. "A sensação de liberdade é a melhor coisa do mundo. Não seria natural fazer sexo de outra forma." Preferencialmente ativo, Pedro admite freqüentar saunas e clubes de orgias e, sobre a associação da prática à promiscuidade, ele é taxativo: "É uma escolha individual. Ninguém é obrigado a transar sem camisinha. Transa quem quiser. E quem entra na chuva é pra se molhar", refere-se ao risco de contaminação.'"Se tiver medo, melhor nem transar assim. Agora, se fez essa opção, corra os riscos que ela possui."
Uma das razões pelas quais a discussão (ou a falta dela) sobre o barebacking enveredou para o simples "contra ou a favor", criando dois lados aparentemente irreconciliáveis e sem diálogo, é exatamente a aparente inconseqüência com a qual muitos homens se lançaram ao sexo sem camisinha. O aumento do contágio entre gays jovens dá munição aos que atacam a prática - apesar de os dados do Boletim Epidemiológico Aids/DST, divulgado em 21 de novembro passado pelo Ministério da Saúde, confirmarem a queda no número de infectados pelo HIV entre os homossexuais - em 1996, representávamos 29,4%, contando também os bissexuais; hoje, somamos 27,6%. Mesmo assim, o que chama a atenção é o fenômeno que envolve os mais jovens enquadrados nessas categorias e as comunidades dedicadas ao tema que se espalham por sites de relacionamento como o Orkut (o que, definitivamente, não significa que todos os que participam delas sejam efetivamente praticantes ou barebackers).
Sobre a maneira mais natural como hoje se encara o contágio pelo HIV, o técnico da área de prevenção do Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS do Estado de São Paulo, Alexandre Yamaçake, tem uma opinião. "Com a chegada dos medicamentos, hoje não dá mais para saber só de olhar quem tem ou não Aids", explica. "Foi o fim do estereótipo. As pessoas sentem-se mais livres para suas práticas, uma vez que ninguém suspeita nem precisa saber se alguém está ou não infectado." Alexandre destaca, porém, que junto com esse aspecto positivo da medicação veio a falsa imagem de que os remédios resolvem. "Além disso, ninguém fala dos efeitos colaterais fortíssimos dos anti-retrovirais - que ficará na vida do paciente ad eternum", reforça Yamaçake.Mas ele reconhece que, apesar de tudo, os praticantes do bareback têm consciência do risco que estão correndo, graças, em grande parte, às sempre presentes campanhas.
Do ponto de vista psicológico, além da "insanidade" que muitos acreditam ser o que move os barebackers, o que mais pode estar por trás da prática? Infelizmente, o preconceito e a compreensível reação de sigilo dos praticantes talvez estejam impedindo que trabalhos sérios sejam desenvolvidos nesse sentido, na busca de entendimento mais amplo desse fenômeno dos nossos tempos. Yamaçake, por sua vivência no CRT, arrisca apontar o medo da doença ("prefiro me infectar a viver na expectativa") e até a baixa auto-estima. Talvez ele tenha razão: já foram notificados casos, por exemplo, de mendigos que se contaminaram na simples busca de cidadania. Explico: sem direito a nada, a partir do momento em que contraem o vírus, passam a receber cuidados do Estado, viram cidadãos. No caso dos gays, é óbvio, a questão da auto-estima inclui um infindável rol de questões, que vão dos segredos da adolescência à clandestinidade sexual e, claro, ao preconceito da sociedade.
Klecius Borges, psicólogo que atua em Terapia Afirmativa para gays e lésbicas, consegue ir mais adiante, separando razões para o sexo sem camisinha - e não creditando tudo ao barebacking. Ele, que não acredita na sexualidade da psicologia do indivíduo, crê que muitos não se preocupam com a questão do contágio, mais preocupadas que estão com o prazer, sem ideologia. Os barebackers, segundo ele, têm uma ideologia, que é a prática sexual como posicionamento diante de uma realidade conhecida, que é a da doença. Sob o olhar das motivações, fugindo um pouco das convicções barebackers (que, segundo o artigo de Ricardo, "nunca foi um movimento"), e indo para a simples prática de sexo sem camisinha entre os gays, surgem ao menos quatro grandes "razões": a boa e velha "prova de amor", que leva gays, muitas vezes com problemas de auto-estima, a quererem "salvar" seus relacionamentos; a resignação diante do "inevitável" contágio; o gosto pelo risco, semelhante aos provocados por esportes radicais; ou o simples fato de preferir a sensação da penetração em pêlo. Certamente, há muitas outras mais ou menos questionáveis.
Do ponto de vista moral, a discriminação contra os gays ganha novo fôlego quando o assunto esbarra no barebacking. Afinal, seria "um mau exemplo". Voltando ao artigo do Ricardo: "Não acho que nós, homossexuais, temos de posar de bonzinhos e responsáveis pela saúde de toda a sociedade, nem de dar 'bons exemplos'... Não há um termo para héteros que não usam camisinha". Os números de héteros, inclusive mulheres casadas e, principalmente, adolescentes femininas infectadas, mostram isso. Se a comparação pode não ser feliz, basta lembrar de gays que fazem sexo oral sem proteção, e que também se expõem, e os que transam sem camisinha, mas que não assumem nem não são barebackers, e ficam na hipocrisia.
Voltando à pergunta inicial: O que você pensa sobre barebacking? Está mais do que na hora de se pensar nele de modo mais sério e aberto - mesmo que não se mude uma vírgula a opinião sobre ele, se a favor ou contra. Definitivamente, não é essa a questão. Os gays não querem mais ficar à sombra por causa de suas opções e preferências: já é tempo de rever conceitos. É hora de tirar a camisinha desse assunto e encará-lo na carne.



