Valéria SimõesJoniel, nascido no interior da Bahia, casou-se com Henrique há dois anos em uma cerimônia pública
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Edição 2 > Relacionamento
Riobaldos e Diadorins
Assumir às claras a preferência pelo mesmo sexo, convenhamos, ainda é uma missão difícil para muitos no anonimato das metrópoles, imagine, então, o embrólio que é para quem está no interior, em locais calcados pela "macheza caipira" aqui, nossa homenagem aos verdadeiros Riobaldos e Diadorins
Roldão Arruda
Em Grande Sertão: Veredas, clássico de Guimarães Rosa, o jagunço Riobaldo, ao descobrir sua afeição além da amizade por Diadorim, companheiro de aventuras e valentias pelos campos gerais, recusa-se a aceitar o que sente. "Nego que gosto de você no mal. Gosto, mas só como amigo" - repete para si mesmo. Apesar da negação, o sentimento cresce e remói, criando um foco de tensão que perpassa quase todo o épico. À certa altura, desnorteado e temendo sucumbir ao inaceitável, Riobaldo cogita até suicídio. Com uma arma na cabeça, pensa, "eu num átimo punha barra em tudo". De forma delicada - e com final surpreendente - o livro escrito nos anos 1950 tangencia a questão da impossibilidade do amor que não ousa dizer seu nome entre caipiras, vaqueiros, sertanejos, caubóis.
Quem não lembra de Brokeback Mountain, do diretor Ang Lee? Em uma história que transcorre nos anos 1960, o guardador de ovelhas Ennis Del Mar também faz referência à morte, quando tenta explicar a Jack Twist por que não assume o amor revelado no alto das montanhas. Ele recorda que, ainda menino, o pai chamou-o para ver, a título de lição para toda a vida, os corpos de dois fazendeiros gays que viviam juntos e tiveram o pênis decepado, depois de mortos a pauladas pelos vizinhos. Guardadas as devidas distâncias artísticas, Glória Perez tratou do assunto no folhetim América, na TV Globo. Em Boiadeiros, lugarejo neocountry inventado por ela, vive o filho de uma fazendeira - garotão a quem Bruno Gagliasso emprestou seus olhos azuis - que hesita até capítulos finais da novela entre ser ou não ser.
Estas e outras histórias registram o que está no imaginário coletivo, ou seja, a idéia de que a bicha caipira enfrenta muito mais barreiras e perseguições que a urbana, razão pela qual a saída que lhe resta é arrumar a trouxa e mudar para a cidade grande. Mas... sempre será assim?
AMIZADE COLORIDA
À margem de uma estradinha de terra vermelha que corta o assentamento Zumbi dos Palmares, na zona rural de Iaras, município paulista na rota da Rodovia Castelo Branco e a 400 quilômetros da Capital, chama a atenção uma placa, pequena e com letras mal alinhavadas, com o nome da propriedade situada atrás dela: Arco-Íris. Isso mesmo, Arco-Íris. Ali, em uma casa de alvenaria inacabada, com tijolos à mostra e partes ainda cobertas de lonas, vive Darci Maria Batista, uma bonita cabocla de 38 anos. Pele bronzeada pelo trabalho ao sol, olhos claros, cabelos longos e anelados. Todos os dias, faça sol ou chuva, frio ou calor, ela acorda às 6 da matina. Toma café preto, pega o balde de alumínio e sai, cantarolando uma musiquinha sertaneja, rumo ao pequeno curral, a menos de 50 metros da casa.
Ao chegar, cumprimenta as nove vacas que já aguardam, cientes e pacientes, a hora da ordenha e se põe a conversar. Mostra-se mais carinhosa e faladeira com Riqueza, espécie de madrinha do grupo, porque foi a primeira vaca a chegar ali, pouco mais de um ano atrás. Angélica também é tratada com atenção especial, pelo fato de estar prenhe. "As grávidas ficam mais sensíveis", explica Darci, que tem quatro filhos. Na vez delas, Castanha, Princesa, Mimosa e as outras meninas, como são chamadas, também ganham afagos e palavras amigas. Além da voz de Darcy, ouve-se apenas o pio dos passarinhos madrugadores do Arco-Íris - um lote de 20 hectares, o correspondente a um pequeno sítio nos padrões rurais brasileiros. Aos poucos, porém, começam a ser ouvidos sinais de atividade lá na cozinha da casa. Dida - apelido de Zildenice Ferreira dos Santos, 31 anos, dos quais cinco ao lado de Darci - também já levantou e lava os litros vazios, nos quais o leite das meninas, depois de coado, será engarrafado e levado para à beira da estrada.
A tarefa deve estar concluída até as 7 horas em ponto. É nessa hora que passa por ali um ônibus apinhado de trabalhadores de uma indústria da região. Eles recolhem o leite das mãos de Dida e, à tardezinha, lhe devolvem o vasilhame vazio - para tornar a buscar no dia seguinte. Assim inicia a rotina diária no Arco-Íris. Nas horas seguintes, Darci e Dida irão capinar um pedaço do terreno que preparam para o plantio, fazer pão, cuidar dos porcos e das galinhas, apartar as vacas dos bezerros, afofar um pequeno canteiro da horta, fazer o almoço, preparar um doce de leite, vigiar o gavião que ameaça os pintinhos no terreiro e assim por diante. Quem escolheu o nome da propriedade, assim como os de vacas, porcos, cachorros, gatos e de todos os seres moventes e não-moventes do lugar foi Darci - sempre com a aprovação de Dida. Mas por que Arco-Íris?
A história começa em 2002, quando Darci se mudou com o marido - um peão desempregado - e seus filhos para um acampamento do Movimento dos Sem-Terra (MST) em Iaras. Eles queriam um lote de terra da reforma agrária para viver e trabalhar. Lá, Darci ficou amiga de Dida, uma das coordenadoras do acampamento, uma eclética comunidade de quase 1 200 pessoas, plantada à beira de uma estrada. As duas foram se aproximando, até que um dia, assustada e negaceando como o jagunço de Guimarães Rosa, Darci descobriu que entre as duas existia algo além da amizade. Para Dida não houve susto nenhum: ela sempre soube, desde quando era menina na zona rural do Maranhão, que tem mais gosto por mulher do que por homem.
A mãe, evangélica da Assembléia de Deus, deu-lhe muitas surras para ver se endireitava e os irmãos a apelidaram de João, por preferir a companhia dos meninos à das meninas e por se vestir e se comportar como um deles. Mas ela não recuou e ainda hoje é assim. Dias atrás, em um rodeio na praça de Iaras, enquanto Darci desfilava com um decote ousado, muito brilho nos lábios, sombras nos olhos e unhas decoradas com estrelinhas, além de brincos, colares e anéis, Dida seguia ao lado, toda airosa, com os cabelos cortados rentes à cabeça, rosto limpo e roupinha básica: botina masculina, calça jeans e camiseta.
Depois de um ano no acampamento e de muitos encontros tórridos, ocultos pelas barracas de lona e patrocinados pela cumplicidade das amigas, Darci decidiu viver com Dida. O céu de Iaras veio abaixo. Além do marido, que impediu a ex-mulher de ficar com os filhos e ameaçou cortar-lhe a cabeça para pendurar em praça pública, servindo de lição, como em Brokeback Mountain, os outros acampados e até líderes do MST reagiram, com ameaças de expulsão das duas. Em uma das muitas - e verborrágicas - assembléias convocadas para discutir o caso, Dida bateu na mesa. "Sou baixinha, sou mulher, sou lésbica. Assumo. Mas também sou batalhadora e sempre fiz tudo o que pude pelo movimento". Ficaram. Mas quiseram mais. Há dois anos, quando finalmente os sem-terra conseguiram o que desejavam e começou a distribuição dos lotes entre eles, Dida e Darci exigiram que o delas fosse registrado oficialmente em nome das duas. Por quê? Dida responde: "Um dia acordei com essa idéia na cabeça: nós não somos um casal? Somos. Então, temos de ser tratadas como os outros casais". Foi outro "Deus nos acuda".
Não existia nada na burocracia do MST nem do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) que contemplasse um pedido assim. Chegaram a oferecer dois pequenos lotes, um para cada uma, para fugir do problema do registro. Mas elas bateram tanto o pé que o Incra de São Paulo achou uma brecha na lei e as duas entraram para a história como o primeiro casal homossexual do país a ter um lote registrado com as mesmas características dos héteros - e ainda abriram caminho para outros pedidos semelhantes que estão chegando ao Incra. O caso tornou a comunidade de assentados mais receptiva à questão homossexual. Os filhos de Darci voltaram a viver com ela e a mãe de Dida, a que lhe aplicava as surras, não gosta quando a filha vai visitá-la sozinha, sem a companheira. "Por que você não trouxe a Darci?", pergunta, amuada.
Nas festas e encontros da comunidade de assentados, chama a atenção o fato de Darci e Dida serem nitidamente reconhecidas como casal. Elas também ganharam admiradores além das fronteiras de Iaras. Depois que sua história foi contada pela primeira vez, no falecido site jornalístico nominimo, no início de 2006, um grupo de lésbicas de São Paulo fez uma vaquinha e deu a elas o que mais cobiçavam na ocasião: a primeira vaquinha, que Darcy batizou como Riqueza. Hoje, o mesmo grupo procura ajudar na construção da casa. Em 2007, a convite do Fantástico, Darci e Dida estiveram na Parada Gay de São Paulo. Encantaram-se com tudo, sobretudo com a enorme bandeira multicolorida que acompanhava a festa. Assim, quem passa hoje diante do lote, lá em Iaras, pode ler na plaqueta: Arco-Íris.
DEPOIS DELAS... ELES
Outra repercussão do caso: dois homossexuais da mesma comunidade, que hesitavam em assumir abertamente sua condição, abriram o jogo. Um deles, Luiz Mesquita, 45 anos, tem um caso assumido com um motorista de 28 anos, a quem foi apresentado, surpreendentemente, pelos pais do rapaz. "Fui visitar um vizinho, que é muito certinho, muito hétero e os pais desse motorista, que são evangélicos, também estavam lá nesse dia", conta Luiz. "Conversamos muito, eles ficaram observando meu jeito, as coisas que eu dizia e, no final, disseram que eu precisava conhecer o filho deles. Passados alguns dias, apareceram em casa para uma visita, com o filho a tiracolo. E deu certo. Pelo menos até agora". Luiz já fez parte da Comissão Pastoral da Terra (CPT), estudou Geografia em Campinas e foi professor antes de se tornar assentado da reforma agrária. Ele acredita que os meios de comunicação, especialmente a TV, estão reduzindo as agudas diferenças de comportamento que antes distanciavam oradores da zona rural e da cidade. As diferenças que persistem nem sempre são ruins. "Aqui as pessoas têm mais tempo pra tudo, até pra namorar".
Existe alguma outra diferença a favor dos caipiras? O professor de bioquímica João Buzato, 51 anos, responde afirmativamente. Para ele, que passou a infância e parte da pré-adolescência em uma comunidade rural e católica, no interior do Paraná, nesse meio a sexualidade transborda por todos os lados, naturalmente: "Você vê boi, galinha, porco, bode, tudo trepando. Só não vê pai e mãe. Mas é tudo tão sexualizado que as brincadeiras entre meninos são naturais, gostosas, sem a sensação de pecado. Parecem sintonizadas com o que acontece ao redor". Foi nessas brincadeiras que João - hoje professor de Farmácia e Bioquímica, com um título de ph.D. em Microbiologia obtido na Escócia - descobriu que era diferente. "Todo mundo fazia com os outros meninos, mas aos poucos fui percebendo que eu gostava mais." A história dele também tem uma curiosidade que vale registrar: João descobriu o preconceito na cidade quando foi para a escola. "Pela primeira vez, chamaram-me de viadinho. Eu não era assim tão afetado, mas os meninos mais velhos identificavam logo qualquer diferença e perseguiam as pessoas. Eu, que tinha vindo de uma comunidade cordial, sofri muito com aquela hostilidade."
Nas histórias de quem viveu na roça, são invariáveis as referências ao trabalho pesado e precoce - eles começam muito cedo a ajudar os pais - e à sensação de liberdade nas horas de lazer. "Eu adorava morar no campo. Tenho boas lembranças da vida livre, da tranqüilidade, do tempo... dava para fazer tudo. Era o paraíso", conta Joniel Rio de Oliveira, 33 anos. Ele cresceu em uma pequena propriedade rural, no município de Xique-Xique, no fundão da Bahia, a 591 quilômetros de Salvador e às margens do majestoso Rio São Francisco. Assim como o paranaense João, participou das brincadeiras de troca-troca na infância e começou a ter relações sexuais já na pré-adolescência - com rapazes e moças: "Nem tive tempo de pensar se gostava de homem ou de mulher". O primeiro contato homossexual - e também o mais duradouro daquela fase de sua vida - aconteceu quando tinha 11 anos e o seu parceiro, 19, que já era casado e pai de dois filhos. "A esposa tinha viajado para a cidade e fui dormir na casa dele. Dormíamos na mesma cama e foi aí que tudo começou", conta Joniel. Os encontros entre eles prosseguiram durante cinco anos. "Às vezes, ele ia tomar banho comigo e os outros moleques no São Francisco. Quando eu mergulhava e seguia na direção dele, já o encontrava sempre ereto."
Os encontros ocorriam quase sempre no mato, quando saíam atrás do gado. Joniel lembra particularmente de uma viagem mais demorada pelo sertão. "Eu já tinha 15 anos quando viajamos para uma fazenda distante, à procura de um garrote, e ficamos por lá uns dez dias. Foi muito bom!" O caso durou até o dia em que o outro separou da esposa e foi embora para Brasília. Mais tarde, Joniel também mudou. Foi para Camaçari, onde descobriu que as relações com mulheres não eram suas preferidas e serviam, sobretudo, para disfarçar sua homossexualidade. Descobriu isso ao lado de seu atual companheiro, Henrique, com quem se casou em uma cerimônia pública há dois anos. Joniel nunca conversou abertamente com sua família sobre aquele período de sua vida à margem do São Francisco, mas acha que eles sabiam do vaqueiro casado. "Tenho quase certeza de que sacavam tudo, especialmente minha mãe, que é bastante observadora e não deixa passar nada. Mas ninguém jamais fez qualquer insinuação com o nome dele."
Quem não lembra de Brokeback Mountain, do diretor Ang Lee? Em uma história que transcorre nos anos 1960, o guardador de ovelhas Ennis Del Mar também faz referência à morte, quando tenta explicar a Jack Twist por que não assume o amor revelado no alto das montanhas. Ele recorda que, ainda menino, o pai chamou-o para ver, a título de lição para toda a vida, os corpos de dois fazendeiros gays que viviam juntos e tiveram o pênis decepado, depois de mortos a pauladas pelos vizinhos. Guardadas as devidas distâncias artísticas, Glória Perez tratou do assunto no folhetim América, na TV Globo. Em Boiadeiros, lugarejo neocountry inventado por ela, vive o filho de uma fazendeira - garotão a quem Bruno Gagliasso emprestou seus olhos azuis - que hesita até capítulos finais da novela entre ser ou não ser.
Estas e outras histórias registram o que está no imaginário coletivo, ou seja, a idéia de que a bicha caipira enfrenta muito mais barreiras e perseguições que a urbana, razão pela qual a saída que lhe resta é arrumar a trouxa e mudar para a cidade grande. Mas... sempre será assim?
AMIZADE COLORIDA
À margem de uma estradinha de terra vermelha que corta o assentamento Zumbi dos Palmares, na zona rural de Iaras, município paulista na rota da Rodovia Castelo Branco e a 400 quilômetros da Capital, chama a atenção uma placa, pequena e com letras mal alinhavadas, com o nome da propriedade situada atrás dela: Arco-Íris. Isso mesmo, Arco-Íris. Ali, em uma casa de alvenaria inacabada, com tijolos à mostra e partes ainda cobertas de lonas, vive Darci Maria Batista, uma bonita cabocla de 38 anos. Pele bronzeada pelo trabalho ao sol, olhos claros, cabelos longos e anelados. Todos os dias, faça sol ou chuva, frio ou calor, ela acorda às 6 da matina. Toma café preto, pega o balde de alumínio e sai, cantarolando uma musiquinha sertaneja, rumo ao pequeno curral, a menos de 50 metros da casa.
Ao chegar, cumprimenta as nove vacas que já aguardam, cientes e pacientes, a hora da ordenha e se põe a conversar. Mostra-se mais carinhosa e faladeira com Riqueza, espécie de madrinha do grupo, porque foi a primeira vaca a chegar ali, pouco mais de um ano atrás. Angélica também é tratada com atenção especial, pelo fato de estar prenhe. "As grávidas ficam mais sensíveis", explica Darci, que tem quatro filhos. Na vez delas, Castanha, Princesa, Mimosa e as outras meninas, como são chamadas, também ganham afagos e palavras amigas. Além da voz de Darcy, ouve-se apenas o pio dos passarinhos madrugadores do Arco-Íris - um lote de 20 hectares, o correspondente a um pequeno sítio nos padrões rurais brasileiros. Aos poucos, porém, começam a ser ouvidos sinais de atividade lá na cozinha da casa. Dida - apelido de Zildenice Ferreira dos Santos, 31 anos, dos quais cinco ao lado de Darci - também já levantou e lava os litros vazios, nos quais o leite das meninas, depois de coado, será engarrafado e levado para à beira da estrada.
A tarefa deve estar concluída até as 7 horas em ponto. É nessa hora que passa por ali um ônibus apinhado de trabalhadores de uma indústria da região. Eles recolhem o leite das mãos de Dida e, à tardezinha, lhe devolvem o vasilhame vazio - para tornar a buscar no dia seguinte. Assim inicia a rotina diária no Arco-Íris. Nas horas seguintes, Darci e Dida irão capinar um pedaço do terreno que preparam para o plantio, fazer pão, cuidar dos porcos e das galinhas, apartar as vacas dos bezerros, afofar um pequeno canteiro da horta, fazer o almoço, preparar um doce de leite, vigiar o gavião que ameaça os pintinhos no terreiro e assim por diante. Quem escolheu o nome da propriedade, assim como os de vacas, porcos, cachorros, gatos e de todos os seres moventes e não-moventes do lugar foi Darci - sempre com a aprovação de Dida. Mas por que Arco-Íris?
A história começa em 2002, quando Darci se mudou com o marido - um peão desempregado - e seus filhos para um acampamento do Movimento dos Sem-Terra (MST) em Iaras. Eles queriam um lote de terra da reforma agrária para viver e trabalhar. Lá, Darci ficou amiga de Dida, uma das coordenadoras do acampamento, uma eclética comunidade de quase 1 200 pessoas, plantada à beira de uma estrada. As duas foram se aproximando, até que um dia, assustada e negaceando como o jagunço de Guimarães Rosa, Darci descobriu que entre as duas existia algo além da amizade. Para Dida não houve susto nenhum: ela sempre soube, desde quando era menina na zona rural do Maranhão, que tem mais gosto por mulher do que por homem.
A mãe, evangélica da Assembléia de Deus, deu-lhe muitas surras para ver se endireitava e os irmãos a apelidaram de João, por preferir a companhia dos meninos à das meninas e por se vestir e se comportar como um deles. Mas ela não recuou e ainda hoje é assim. Dias atrás, em um rodeio na praça de Iaras, enquanto Darci desfilava com um decote ousado, muito brilho nos lábios, sombras nos olhos e unhas decoradas com estrelinhas, além de brincos, colares e anéis, Dida seguia ao lado, toda airosa, com os cabelos cortados rentes à cabeça, rosto limpo e roupinha básica: botina masculina, calça jeans e camiseta.
Depois de um ano no acampamento e de muitos encontros tórridos, ocultos pelas barracas de lona e patrocinados pela cumplicidade das amigas, Darci decidiu viver com Dida. O céu de Iaras veio abaixo. Além do marido, que impediu a ex-mulher de ficar com os filhos e ameaçou cortar-lhe a cabeça para pendurar em praça pública, servindo de lição, como em Brokeback Mountain, os outros acampados e até líderes do MST reagiram, com ameaças de expulsão das duas. Em uma das muitas - e verborrágicas - assembléias convocadas para discutir o caso, Dida bateu na mesa. "Sou baixinha, sou mulher, sou lésbica. Assumo. Mas também sou batalhadora e sempre fiz tudo o que pude pelo movimento". Ficaram. Mas quiseram mais. Há dois anos, quando finalmente os sem-terra conseguiram o que desejavam e começou a distribuição dos lotes entre eles, Dida e Darci exigiram que o delas fosse registrado oficialmente em nome das duas. Por quê? Dida responde: "Um dia acordei com essa idéia na cabeça: nós não somos um casal? Somos. Então, temos de ser tratadas como os outros casais". Foi outro "Deus nos acuda".
Não existia nada na burocracia do MST nem do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) que contemplasse um pedido assim. Chegaram a oferecer dois pequenos lotes, um para cada uma, para fugir do problema do registro. Mas elas bateram tanto o pé que o Incra de São Paulo achou uma brecha na lei e as duas entraram para a história como o primeiro casal homossexual do país a ter um lote registrado com as mesmas características dos héteros - e ainda abriram caminho para outros pedidos semelhantes que estão chegando ao Incra. O caso tornou a comunidade de assentados mais receptiva à questão homossexual. Os filhos de Darci voltaram a viver com ela e a mãe de Dida, a que lhe aplicava as surras, não gosta quando a filha vai visitá-la sozinha, sem a companheira. "Por que você não trouxe a Darci?", pergunta, amuada.
Nas festas e encontros da comunidade de assentados, chama a atenção o fato de Darci e Dida serem nitidamente reconhecidas como casal. Elas também ganharam admiradores além das fronteiras de Iaras. Depois que sua história foi contada pela primeira vez, no falecido site jornalístico nominimo, no início de 2006, um grupo de lésbicas de São Paulo fez uma vaquinha e deu a elas o que mais cobiçavam na ocasião: a primeira vaquinha, que Darcy batizou como Riqueza. Hoje, o mesmo grupo procura ajudar na construção da casa. Em 2007, a convite do Fantástico, Darci e Dida estiveram na Parada Gay de São Paulo. Encantaram-se com tudo, sobretudo com a enorme bandeira multicolorida que acompanhava a festa. Assim, quem passa hoje diante do lote, lá em Iaras, pode ler na plaqueta: Arco-Íris.
DEPOIS DELAS... ELES
Outra repercussão do caso: dois homossexuais da mesma comunidade, que hesitavam em assumir abertamente sua condição, abriram o jogo. Um deles, Luiz Mesquita, 45 anos, tem um caso assumido com um motorista de 28 anos, a quem foi apresentado, surpreendentemente, pelos pais do rapaz. "Fui visitar um vizinho, que é muito certinho, muito hétero e os pais desse motorista, que são evangélicos, também estavam lá nesse dia", conta Luiz. "Conversamos muito, eles ficaram observando meu jeito, as coisas que eu dizia e, no final, disseram que eu precisava conhecer o filho deles. Passados alguns dias, apareceram em casa para uma visita, com o filho a tiracolo. E deu certo. Pelo menos até agora". Luiz já fez parte da Comissão Pastoral da Terra (CPT), estudou Geografia em Campinas e foi professor antes de se tornar assentado da reforma agrária. Ele acredita que os meios de comunicação, especialmente a TV, estão reduzindo as agudas diferenças de comportamento que antes distanciavam oradores da zona rural e da cidade. As diferenças que persistem nem sempre são ruins. "Aqui as pessoas têm mais tempo pra tudo, até pra namorar".
Existe alguma outra diferença a favor dos caipiras? O professor de bioquímica João Buzato, 51 anos, responde afirmativamente. Para ele, que passou a infância e parte da pré-adolescência em uma comunidade rural e católica, no interior do Paraná, nesse meio a sexualidade transborda por todos os lados, naturalmente: "Você vê boi, galinha, porco, bode, tudo trepando. Só não vê pai e mãe. Mas é tudo tão sexualizado que as brincadeiras entre meninos são naturais, gostosas, sem a sensação de pecado. Parecem sintonizadas com o que acontece ao redor". Foi nessas brincadeiras que João - hoje professor de Farmácia e Bioquímica, com um título de ph.D. em Microbiologia obtido na Escócia - descobriu que era diferente. "Todo mundo fazia com os outros meninos, mas aos poucos fui percebendo que eu gostava mais." A história dele também tem uma curiosidade que vale registrar: João descobriu o preconceito na cidade quando foi para a escola. "Pela primeira vez, chamaram-me de viadinho. Eu não era assim tão afetado, mas os meninos mais velhos identificavam logo qualquer diferença e perseguiam as pessoas. Eu, que tinha vindo de uma comunidade cordial, sofri muito com aquela hostilidade."
Nas histórias de quem viveu na roça, são invariáveis as referências ao trabalho pesado e precoce - eles começam muito cedo a ajudar os pais - e à sensação de liberdade nas horas de lazer. "Eu adorava morar no campo. Tenho boas lembranças da vida livre, da tranqüilidade, do tempo... dava para fazer tudo. Era o paraíso", conta Joniel Rio de Oliveira, 33 anos. Ele cresceu em uma pequena propriedade rural, no município de Xique-Xique, no fundão da Bahia, a 591 quilômetros de Salvador e às margens do majestoso Rio São Francisco. Assim como o paranaense João, participou das brincadeiras de troca-troca na infância e começou a ter relações sexuais já na pré-adolescência - com rapazes e moças: "Nem tive tempo de pensar se gostava de homem ou de mulher". O primeiro contato homossexual - e também o mais duradouro daquela fase de sua vida - aconteceu quando tinha 11 anos e o seu parceiro, 19, que já era casado e pai de dois filhos. "A esposa tinha viajado para a cidade e fui dormir na casa dele. Dormíamos na mesma cama e foi aí que tudo começou", conta Joniel. Os encontros entre eles prosseguiram durante cinco anos. "Às vezes, ele ia tomar banho comigo e os outros moleques no São Francisco. Quando eu mergulhava e seguia na direção dele, já o encontrava sempre ereto."
Os encontros ocorriam quase sempre no mato, quando saíam atrás do gado. Joniel lembra particularmente de uma viagem mais demorada pelo sertão. "Eu já tinha 15 anos quando viajamos para uma fazenda distante, à procura de um garrote, e ficamos por lá uns dez dias. Foi muito bom!" O caso durou até o dia em que o outro separou da esposa e foi embora para Brasília. Mais tarde, Joniel também mudou. Foi para Camaçari, onde descobriu que as relações com mulheres não eram suas preferidas e serviam, sobretudo, para disfarçar sua homossexualidade. Descobriu isso ao lado de seu atual companheiro, Henrique, com quem se casou em uma cerimônia pública há dois anos. Joniel nunca conversou abertamente com sua família sobre aquele período de sua vida à margem do São Francisco, mas acha que eles sabiam do vaqueiro casado. "Tenho quase certeza de que sacavam tudo, especialmente minha mãe, que é bastante observadora e não deixa passar nada. Mas ninguém jamais fez qualquer insinuação com o nome dele."


