BOB DAEMMRICH/CORBISOs dois militares gays entrevistados preferiram a proteção do anonimato. Nomes fictícios: Luís e Lucas, quase nome de dupla sertaneja
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As "nossas" forças armadas
DOM conversou com dois militares de carreira assumidamente gays em sua vida civil. Ficou surpreso? Nós também. A conversa franca teve um início tenso, mas animou como uma boa balada - deixando à mostra o outro lado da caserna
Por Valmir Junior
As 12h de um sábado meio ensolarado, meio nublado, combinei de encontrar minhas duas fontes para esta matéria. O local escolhido foi uma cafeteria na Vila Mariana, em São Paulo. Aguardo do lado de fora, em uma mesa protegida por um guarda-sol para que ficássemos longe de outros clientes, já que o assunto seria polêmico; talvez os meninos ficassem um pouco envergonhados. Contei com a divina providência, que não me desapontou: quando os dois já estavam a postos, um casal de amigas japonesas ao meu lado estava de saída. Assim ficamos livres para conversar. Ambos são bonitos e de boa postura. Bem articulados e cheios de histórias. Para quebrar o gelo, já lancei de brincadeira: "Que nome vocês querem? Não vale nome de drag". Risadas. Os dois queriam a proteção do anonimato. Nomes fictícios: Luís e Lucas, quase nome de dupla sertaneja.
Gelo desfeito, investigo a vida pessoal deles. Luís, 35, assumiu para si mesmo aos 26, noivou com uma mulher. No meio do noivado, começou a sair e transar com homens. Sim, leitor abusado, ele transava com ela também. Terminou com a noiva, depois voltou, porém logo percebeu: "Não dá para lutar contra a natureza". Ao contrário, Lucas nunca teve relações com mulheres. Com 27 anos, sempre olhou para "garotinh...". Opa, ele corrige. "Garotos." Afinal, ninguém quer ser tachado de pedófilo, mesmo que anonimamente.
Os pais de Luís não sabem dele. São idosos. Mas, curiosamente, Luís tem um irmão que também é homossexual. E os dois trocam figurinhas. "Na verdade, facilitou um pouco a minha..." "Carreira", emenda Lucas, jocosamente. Os dois se escancaram nas risadas.
A "carreira homossexual" de Lucas iniciou aos 17. A maior dificuldade era a mãe. Ele fala com um tremor nos lábios, está nervoso: "Hoje é minha cúmplice. Estava apaixonado por um homem. Minha mãe disse: 'Nossa, quero conhecer seu namorado. Deve ter um problema sério, ser prostituto, ter um filho. Mas estamos aí para o que der e vier'". A mãe de Lucas consegue brincar também: "Vendo aquela novela de mutantes, ela diz: 'ah, você é um mutante'". Todos rimos. Ele completa: "Mas é carinhosamente". E o pai? Lucas menciona que a mãe ficou desesperada e abriu tudo para o pai. "Ele ficou depressivo, voltou a fumar. Hoje, acredita que eu não sou mais. Prefere não comentar o assunto", arremata.
"Se você me ama, não vá fazer essa entrevista, porque eles vão colocar coisas na sua boca, vão escrever coisas que você não disse. A Marinha vai descobrir e vai acabar sendo o fim da sua carreira." A frase da mãe de Lucas soa melodramática, enquanto achávamos graça no tom feminino que ele usava, abrindo caminho para o tópico a seguir: a real carreira nas Forças Armadas.
Ambos decidiram espontaneamente pelo militarismo. Luís completou a faculdade e fez um período temporário na Aeronáutica. Formado na área da saúde, surgiram oportunidades para seguir carreira militar, e assim ali ficou. Lucas queria desde pequeno ser militar na Marinha. Pensava que seria cabo ou marinheiro. Fez o segundo grau nas Forças Armadas, depois o nível superior e prossegue na Marinha. Hoje, ambos são primeiros-tenentes, cada qual em uma força.
Pergunto quando foi que caiu a ficha de que teriam problemas com relação à homossexualidade de ambos no serviço militar. "A gente começa a perceber situações, a visualizar coisas, comportamentos... Sou muito observador nesse ponto de vista humano. Comecei a pensar: 'Vai ser brabo'", começa Luís. Para um oficial, a vida pessoal entra sempre em jogo. Ele continua: "Existe um conceito anual que todo mundo recebe, em que entram esses itens relacionados a comportamento. Começa a haver essa cobrança. Então, dependendo do meio, a gente tenta se esquivar".
Existem gays nas Forças Armadas em diferentes níveis. Desde praças (marinheiros, cabos e sargentos) até oficiais em altos postos. "E você sabe quem são. Conheço um tenente-coronel, alto escalão. É gay, mas tem casamento de fachada. Nunca desconfiei nada dele. Passou um tempo e ele se separou", fala Luís.
Luís alonga e conta que o amigo tenente-coronel fala de um brigadeiro, ou seja, um oficial-general que é homossexual e que ele conhece. "Ele mesmo já saiu com os coronéis. É o que a gente chama de quatro estrelas... Ou seja, o top do top de linha. E você vai ver o histórico do cara, ele não casou. Acontece. O cara deve ter sido tão bom oficial, profissional, que conseguiu ultrapassar essas barreiras."
Lucas confessa que a estratégia do casamento de fachada e posterior divórcio é muito utilizada: "Todas as pessoas que eu conheço, quando chega uma certa etapa, acabam casando e vivendo um casamento de fachada. Conheço homens e mulheres nesse paradigma. Tem todo um jogo, de arrumar um lugar bom para servir. Você acaba não indo se ganhar conceitos baixos. Na avaliação anual, se o conceito da parte pessoal é baixo, isso vai contar para o seu futuro".
O mesmo acontece com mulheres. "Amigas minhas [também homossexuais] têm de ter seu marido, com aliança. Não pretendo fazer isso na minha vida. Não pretendo casar pra...", Lucas é interrompido por Luís, que também atesta: "Nem eu. É uma coisa que eu não quero fazer". Entretanto, Lucas afirma que, para a Marinha, ele tem namorada.
Lucas: "Tem gente que não liga para a carreira e se assume". Questiono o que é se assumir. É dizer para todos que é homossexual ou tem outra conotação? Ele responde: "É pessoalmente. Tem gente nas Forças Armadas que é afeminado. É o jeito da pessoa. Vai ter conseqüências, não vai atingir os melhores conceitos, mas não vai ser mandado embora. A Marinha não manda embora só porque o cara é afeminado".
Os dois concordam que o preconceito nas Forças Armadas equivale ao de um ator. Na TV, atores assumidos têm papéis menores. A mesma lógica prevalece para os militares. Luís relata: "Conheci um soldado que era... uma mulher. Totalmente. Era o caso do major. Então, ele tinha essa facilidade". Lucas contribui: "Próximo ao meu trabalho tem um quartel. Um praça é afeminado, mas assim..." - ele enfatiza - "... muito respeitado. E comentam comigo: 'Você não vai sair hoje com o fulano pra tomar um chope?', aquela brincadeira...".
Quero saber como é a convivência, se existe coação. Afinal, os filmes, o imaginário e os "causos" nos ensinam que não é fácil a convivência em quartéis, navios e outras unidades militares. Lucas acha que é um sintoma genérico: "Vou ser sincero. Os héteros, quando estão em grupo, se sentem mais fortes para zombar de qualquer minoria. Tanto gays como negros. Ficam zombando, chamando de gay, de veado, daí para coisas piores. Mas nunca vi agressão física, só sacaneando mesmo".
Insisto. Nada além da brincadeira e do preconceito? Ele diz que, em sua formação, falaram que havia tido uma relação entre homens no quartel. "Um garoto começou a espalhar, a falar para todo mundo. Se fosse comprovado, poderia ser passível de punição. Mas ele não tinha provas para dizer se era verdade ou mentira. Acabou que esse militar foi punido por disseminar um boato. Não lembro a punição, mas ficou manchado."
Recorro novamente aos filmes para chegar aos métodos de coação e punição e Luís menciona Tropa de Elite. Referências cinematográficas sempre ajudam. Pergunto se não há nada desse tipo. Ambos negam. Parto para o imaginário popular. Digo se ninguém grita "Vira homem!" ou coisa do gênero. Lucas: "Há o constrangimento moral". Luís: "Isso só em casos específicos, tipo treinamento de sobrevivência".
Parece que, dentro do ambiente militar, a arma mais forte é a moralidade. Lucas exemplifica: "Teve um garoto que eu presenciei. Era da turma de baixo. Os amigos de turma o viram na boate. E anunciaram para todo mundo". Eu zombo. Afinal, como alguém o viu na boate sem ter algum envolvimento com o assunto? O "passei na frente" não parece colar. Ele afirma com a cabeça e com um sorriso maroto. Diz que é complicado e continua: "Dizem que estavam passando e viram. Começaram a dizer para todos só para constrangê-lo. 'Ah, então o cara é gay.' A pessoa fica desesperada porque não sabe o que poderá vir. Mas nunca de ser agredido no físico". Menos mal.
Ao abordar o assunto sexo, Lucas diz que é uma grande preocupação na Marinha, até porque é dito que há grupos de gays e, com isso, comandantes e imediatos ficam em alerta. Ele prossegue: "Eu sei de uma história. O sargento estava com o cara. Ele não seria gay, mas na necessidade de um prazer, aceitou uma brincadeira". E logo completa, dizendo que, pelo mesmo motivo, é muito difícil haver uma mulher a bordo. Justo.
Luís relata um caso próximo. Aliás, próximo demais: "Já vi e conheci várias pessoas que transaram dentro das Forças Armadas. Não são poucas, são várias", ele pausa triunfante. "Inclusive eu." Caímos na gargalhada. Eu não esperava. Pergunto como ele sabia que o outro era gay - pura curiosidade de "método". "Era um casinho meu. A gente se conheceu fora. Foi o primeiro namoradinho que eu tive. Durou três meses. Uma vez, eu estava com fome e pedi pra ele me trazer um McDonald's. Daí o levei pra minha sala e 'váfu'." Mais gargalhadas. "Conheço várias histórias. Obviamente mais de heterossexuais do que de homossexuais, mas conheço casos homossexuais também", costura Luís. em outro estado. Quando eles me vêem, eles ficam 'ah'", agora é Luís que se gaba. E ele dá um up em si mesmo: "Dizem: 'Vai ficar lindo, vai ficar um tesão, gostoso, não aparece de farda na minha frente, não!'... Realmente, cara, é a preferência nacional em termos de fetiche".
Invisto no óbvio, mas eu acho que dá caldo. "E nos alojamentos, com aquela penca de homens nus e vocês dois ali, no meio?", abro um sorriso. "As pessoas que eu vejo, geralmente, são pessoas que eu conheço desde novinho, então eu encaro como amigos. Não dá para na hora do banho ficar excitado", sai na defesa Luís, só para me desmontar depois. "Lógico, depois eu sonho." Nós três damos uma bela risada e Luís concorda com a primeira parte: "Nunca fiquei. Graças a Deus, nunca passei por isso. Essa coisa 'não tem como ficar aqui' já baixa minha adrenalina na hora. Não tem jeito".
Lucas, mais desenvolto do que no começo da entrevista, aponta o amigão e dispara: "Ele não é tão inconsciente! Tem medo de ser cortado!". Depois encarna a nostalgia: "Era apaixonado por um amigo. Fuzileiro naval. Imagina aquela farda de fuzileiro naval... E via pelado, via de cueca... Abraçava. E homem adora abraçar. Nossa!". Luís vai junto: "É amizade. Hétero, quando é amigo, se abraça demais". Em seguida, polemiza: "E não sou hipócrita, tenho meu marido, mas quando eu me masturbo... Cara! Fico imaginando só as pessoas de quem lembro, que são héteros, penso e... caralho... Não vai pensar no seu marido, que está ali todo dia... Isso daí eu faço ao vivo. Quando é fantasia, tem de variar".
Provoco os dois e pergunto se o homossexual estaria capacitado para o ofício das Forças Armadas. A reação é imediata. "Nada a ver", bradam os dois. Lucas defende: "Tanto homem quanto mulher, as pessoas que eu conheço são extremamente capacitadas". Pego no pé: "Se tiver uma guerra, vocês me garantem que vão lutar bem?". Quero ver a reação deles, mas os dois são completamente seguros: "Com certeza". Lucas conclui - e achei tão bonito que essa frase devia ser o fim da matéria -: "Olha, por outro lado, acho que em uma guerra um dos maiores atributos é a coragem. E quem tem mais coragem do que o gay pra fazer tudo o que o gay faz?".
"CARREIRA"
Gelo desfeito, investigo a vida pessoal deles. Luís, 35, assumiu para si mesmo aos 26, noivou com uma mulher. No meio do noivado, começou a sair e transar com homens. Sim, leitor abusado, ele transava com ela também. Terminou com a noiva, depois voltou, porém logo percebeu: "Não dá para lutar contra a natureza". Ao contrário, Lucas nunca teve relações com mulheres. Com 27 anos, sempre olhou para "garotinh...". Opa, ele corrige. "Garotos." Afinal, ninguém quer ser tachado de pedófilo, mesmo que anonimamente.
Os pais de Luís não sabem dele. São idosos. Mas, curiosamente, Luís tem um irmão que também é homossexual. E os dois trocam figurinhas. "Na verdade, facilitou um pouco a minha..." "Carreira", emenda Lucas, jocosamente. Os dois se escancaram nas risadas.
A "carreira homossexual" de Lucas iniciou aos 17. A maior dificuldade era a mãe. Ele fala com um tremor nos lábios, está nervoso: "Hoje é minha cúmplice. Estava apaixonado por um homem. Minha mãe disse: 'Nossa, quero conhecer seu namorado. Deve ter um problema sério, ser prostituto, ter um filho. Mas estamos aí para o que der e vier'". A mãe de Lucas consegue brincar também: "Vendo aquela novela de mutantes, ela diz: 'ah, você é um mutante'". Todos rimos. Ele completa: "Mas é carinhosamente". E o pai? Lucas menciona que a mãe ficou desesperada e abriu tudo para o pai. "Ele ficou depressivo, voltou a fumar. Hoje, acredita que eu não sou mais. Prefere não comentar o assunto", arremata.
FACHADA
"Se você me ama, não vá fazer essa entrevista, porque eles vão colocar coisas na sua boca, vão escrever coisas que você não disse. A Marinha vai descobrir e vai acabar sendo o fim da sua carreira." A frase da mãe de Lucas soa melodramática, enquanto achávamos graça no tom feminino que ele usava, abrindo caminho para o tópico a seguir: a real carreira nas Forças Armadas.
Ambos decidiram espontaneamente pelo militarismo. Luís completou a faculdade e fez um período temporário na Aeronáutica. Formado na área da saúde, surgiram oportunidades para seguir carreira militar, e assim ali ficou. Lucas queria desde pequeno ser militar na Marinha. Pensava que seria cabo ou marinheiro. Fez o segundo grau nas Forças Armadas, depois o nível superior e prossegue na Marinha. Hoje, ambos são primeiros-tenentes, cada qual em uma força.
Pergunto quando foi que caiu a ficha de que teriam problemas com relação à homossexualidade de ambos no serviço militar. "A gente começa a perceber situações, a visualizar coisas, comportamentos... Sou muito observador nesse ponto de vista humano. Comecei a pensar: 'Vai ser brabo'", começa Luís. Para um oficial, a vida pessoal entra sempre em jogo. Ele continua: "Existe um conceito anual que todo mundo recebe, em que entram esses itens relacionados a comportamento. Começa a haver essa cobrança. Então, dependendo do meio, a gente tenta se esquivar".
Existem gays nas Forças Armadas em diferentes níveis. Desde praças (marinheiros, cabos e sargentos) até oficiais em altos postos. "E você sabe quem são. Conheço um tenente-coronel, alto escalão. É gay, mas tem casamento de fachada. Nunca desconfiei nada dele. Passou um tempo e ele se separou", fala Luís.
Luís alonga e conta que o amigo tenente-coronel fala de um brigadeiro, ou seja, um oficial-general que é homossexual e que ele conhece. "Ele mesmo já saiu com os coronéis. É o que a gente chama de quatro estrelas... Ou seja, o top do top de linha. E você vai ver o histórico do cara, ele não casou. Acontece. O cara deve ter sido tão bom oficial, profissional, que conseguiu ultrapassar essas barreiras."
Lucas confessa que a estratégia do casamento de fachada e posterior divórcio é muito utilizada: "Todas as pessoas que eu conheço, quando chega uma certa etapa, acabam casando e vivendo um casamento de fachada. Conheço homens e mulheres nesse paradigma. Tem todo um jogo, de arrumar um lugar bom para servir. Você acaba não indo se ganhar conceitos baixos. Na avaliação anual, se o conceito da parte pessoal é baixo, isso vai contar para o seu futuro".
O mesmo acontece com mulheres. "Amigas minhas [também homossexuais] têm de ter seu marido, com aliança. Não pretendo fazer isso na minha vida. Não pretendo casar pra...", Lucas é interrompido por Luís, que também atesta: "Nem eu. É uma coisa que eu não quero fazer". Entretanto, Lucas afirma que, para a Marinha, ele tem namorada.
O MESMO QUE UM ATOR
Lucas: "Tem gente que não liga para a carreira e se assume". Questiono o que é se assumir. É dizer para todos que é homossexual ou tem outra conotação? Ele responde: "É pessoalmente. Tem gente nas Forças Armadas que é afeminado. É o jeito da pessoa. Vai ter conseqüências, não vai atingir os melhores conceitos, mas não vai ser mandado embora. A Marinha não manda embora só porque o cara é afeminado".
Os dois concordam que o preconceito nas Forças Armadas equivale ao de um ator. Na TV, atores assumidos têm papéis menores. A mesma lógica prevalece para os militares. Luís relata: "Conheci um soldado que era... uma mulher. Totalmente. Era o caso do major. Então, ele tinha essa facilidade". Lucas contribui: "Próximo ao meu trabalho tem um quartel. Um praça é afeminado, mas assim..." - ele enfatiza - "... muito respeitado. E comentam comigo: 'Você não vai sair hoje com o fulano pra tomar um chope?', aquela brincadeira...".
Quero saber como é a convivência, se existe coação. Afinal, os filmes, o imaginário e os "causos" nos ensinam que não é fácil a convivência em quartéis, navios e outras unidades militares. Lucas acha que é um sintoma genérico: "Vou ser sincero. Os héteros, quando estão em grupo, se sentem mais fortes para zombar de qualquer minoria. Tanto gays como negros. Ficam zombando, chamando de gay, de veado, daí para coisas piores. Mas nunca vi agressão física, só sacaneando mesmo".
Insisto. Nada além da brincadeira e do preconceito? Ele diz que, em sua formação, falaram que havia tido uma relação entre homens no quartel. "Um garoto começou a espalhar, a falar para todo mundo. Se fosse comprovado, poderia ser passível de punição. Mas ele não tinha provas para dizer se era verdade ou mentira. Acabou que esse militar foi punido por disseminar um boato. Não lembro a punição, mas ficou manchado."
Recorro novamente aos filmes para chegar aos métodos de coação e punição e Luís menciona Tropa de Elite. Referências cinematográficas sempre ajudam. Pergunto se não há nada desse tipo. Ambos negam. Parto para o imaginário popular. Digo se ninguém grita "Vira homem!" ou coisa do gênero. Lucas: "Há o constrangimento moral". Luís: "Isso só em casos específicos, tipo treinamento de sobrevivência".
Parece que, dentro do ambiente militar, a arma mais forte é a moralidade. Lucas exemplifica: "Teve um garoto que eu presenciei. Era da turma de baixo. Os amigos de turma o viram na boate. E anunciaram para todo mundo". Eu zombo. Afinal, como alguém o viu na boate sem ter algum envolvimento com o assunto? O "passei na frente" não parece colar. Ele afirma com a cabeça e com um sorriso maroto. Diz que é complicado e continua: "Dizem que estavam passando e viram. Começaram a dizer para todos só para constrangê-lo. 'Ah, então o cara é gay.' A pessoa fica desesperada porque não sabe o que poderá vir. Mas nunca de ser agredido no físico". Menos mal.
"INCLUSIVE EU"
Ao abordar o assunto sexo, Lucas diz que é uma grande preocupação na Marinha, até porque é dito que há grupos de gays e, com isso, comandantes e imediatos ficam em alerta. Ele prossegue: "Eu sei de uma história. O sargento estava com o cara. Ele não seria gay, mas na necessidade de um prazer, aceitou uma brincadeira". E logo completa, dizendo que, pelo mesmo motivo, é muito difícil haver uma mulher a bordo. Justo.
Luís relata um caso próximo. Aliás, próximo demais: "Já vi e conheci várias pessoas que transaram dentro das Forças Armadas. Não são poucas, são várias", ele pausa triunfante. "Inclusive eu." Caímos na gargalhada. Eu não esperava. Pergunto como ele sabia que o outro era gay - pura curiosidade de "método". "Era um casinho meu. A gente se conheceu fora. Foi o primeiro namoradinho que eu tive. Durou três meses. Uma vez, eu estava com fome e pedi pra ele me trazer um McDonald's. Daí o levei pra minha sala e 'váfu'." Mais gargalhadas. "Conheço várias histórias. Obviamente mais de heterossexuais do que de homossexuais, mas conheço casos homossexuais também", costura Luís. em outro estado. Quando eles me vêem, eles ficam 'ah'", agora é Luís que se gaba. E ele dá um up em si mesmo: "Dizem: 'Vai ficar lindo, vai ficar um tesão, gostoso, não aparece de farda na minha frente, não!'... Realmente, cara, é a preferência nacional em termos de fetiche".
Invisto no óbvio, mas eu acho que dá caldo. "E nos alojamentos, com aquela penca de homens nus e vocês dois ali, no meio?", abro um sorriso. "As pessoas que eu vejo, geralmente, são pessoas que eu conheço desde novinho, então eu encaro como amigos. Não dá para na hora do banho ficar excitado", sai na defesa Luís, só para me desmontar depois. "Lógico, depois eu sonho." Nós três damos uma bela risada e Luís concorda com a primeira parte: "Nunca fiquei. Graças a Deus, nunca passei por isso. Essa coisa 'não tem como ficar aqui' já baixa minha adrenalina na hora. Não tem jeito".
Lucas, mais desenvolto do que no começo da entrevista, aponta o amigão e dispara: "Ele não é tão inconsciente! Tem medo de ser cortado!". Depois encarna a nostalgia: "Era apaixonado por um amigo. Fuzileiro naval. Imagina aquela farda de fuzileiro naval... E via pelado, via de cueca... Abraçava. E homem adora abraçar. Nossa!". Luís vai junto: "É amizade. Hétero, quando é amigo, se abraça demais". Em seguida, polemiza: "E não sou hipócrita, tenho meu marido, mas quando eu me masturbo... Cara! Fico imaginando só as pessoas de quem lembro, que são héteros, penso e... caralho... Não vai pensar no seu marido, que está ali todo dia... Isso daí eu faço ao vivo. Quando é fantasia, tem de variar".
CAPACITADO
Provoco os dois e pergunto se o homossexual estaria capacitado para o ofício das Forças Armadas. A reação é imediata. "Nada a ver", bradam os dois. Lucas defende: "Tanto homem quanto mulher, as pessoas que eu conheço são extremamente capacitadas". Pego no pé: "Se tiver uma guerra, vocês me garantem que vão lutar bem?". Quero ver a reação deles, mas os dois são completamente seguros: "Com certeza". Lucas conclui - e achei tão bonito que essa frase devia ser o fim da matéria -: "Olha, por outro lado, acho que em uma guerra um dos maiores atributos é a coragem. E quem tem mais coragem do que o gay pra fazer tudo o que o gay faz?".


