Edição 3 > Editorial

Carta do Editor

Jorge Tarquini
Diretor de Redação

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Horário nobre. Novela "das oito", mas que começa às nove. Ele comete pequenos delitos, é um bandidinho bem rampeiro que, de modo maniqueísta, divide opiniões, com torcida contra ou a favor, como se viver fosse um teste de verdadeiro ou falso, sim ou não sem direito a talvez. No fim, para redimir a todos, vítimas e algozes, o "vilão" morre. O roteiro é sempre o mesmo. Nos folhetins, matar o mal lava a alma como, na vida real, nem sempre conseguimos. Esse é o papel da ficção. Provocar a catarse, vingar, justiçar. Tudo assim, simples, previsível e, por isso mesmo, encantador.
Ainda bem que hoje estamos longe daqueles tempos de inocência quase patética, quando a platéia embevecida com as tramas rocambolescas confundia o artista com seus personagens. Quantas perseguições em corredores de supermercados, olhares tortos em restaurantes. Pobres vilões... Ou melhor: pobres atores que dão vida aos vilões. Ainda bem que esse tempo ficou para trás. Assim como vemos ficar para trás tempos de intolerância contra quem quer que seja. Ficou démodé - ao menos nos círculos minimamente esclarecidos.

Muita luta aconteceu para chegarmos aonde estamos hoje em relação a questões de igualdade racial, social e sexual. A vigilância não pode cessar, claro. Mas não podemos deixar de aplaudir quando um ator, interpretando seja um mocinho, seja um vilão, despido de qualquer preconceito ou julgamento, e sem medo de deles ser vítima, empresta sua imagem, seu bem mais valioso e que garante o pão de cada dia a uma revista voltada para o público gay.

Publicidade fácil para ele? Pobreza de espírito pensar assim. Afinal, seu personagem tem rendido visibilidade e até elogios, ele e sua "pretinha", no caso, estão grávidos, esperando gêmeos - por sinal, para o mesmo mês de abril em que o rosto do papai vai chegar às bancas na tal revista gay.
A redação da DOM se sente vitoriosa de ter merecido tamanho respeito (extensivo, claro, aos nossos leitores). Longe da babação de ovo, não podemos minimizar o fato de, já na terceira edição, protagonizarmos o que, para nós, é uma conquista não da revista, mas do universo gay. Não, nada de deslumbramento. Apenas saber entender o que isso significa para a história da revista, da comunidade e do país.

Assim como não se perseguem mais "vilões" por corredores de supermercados, tenho certeza de que bancas de jornal não serão incendiadas com a chegada dessa capa. Os tempos de perseguição acabaram. Bem como o da inocência e o da intolerância. Que possamos todos ser bem-vindos. Inclusive os muitos vilões e mocinhos que a ficção ainda vai fazer cruzar o seu caminho na vida real. Aplaudo de pé você, Rodrigo.
No dia 25 de maio, São Paulo vai parar para ver passar a maior parada gay do Brasil - e que quer novamente se confirmar como a maior do planeta. Neste ano, o tema será HOMOFOBIA MATA! - Por um Estado laico de fato