Edição 4 > Saúde

Sangue ruim

Gays, ou "homens que fazem sexo com outros homens" (HSH), na definição do Ministério da Saúde, são impedidos de doar sangue no Brasil. A notícia pode ser velha, mas o debate nunca foi tão atual - e necessário

Jorge Tarquini

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De um lado, bancos de sangue se mantêm em campanha constante por novos doadores. De outro, a Coordenação de Sangue e Derivados do Ministério da Saúde há quinze anos oficialmente inabilita "homens que fazem sexo com outros homens" (HSH) a doar sangue por doze meses desde a última relação - conforme Portaria 1376/93, que à época até recebeu o apoio do combativo Grupo Gay da Bahia, e que foi modificada há quatro anos pela resolução RDC 153/2004, não falando mais de homossexuais, mas de "homens que tenham mantido relações sexuais com outros homens", os tais HSH.
O que parece ser apenas uma medida preconceituosa e exagerada à luz dos avanços da ciência, baseada numa realidade ultrapassada e distante da detecção e do contágio pelo HIV e do entendimento do que seriam grupos de risco do século passado, na verdade é um assunto delicado e complexo, que transita entre a medicina, o direito e a ética - além da moral. Sem discuti-lo, certamente não se avançará em outras questões, como a união civil ou até mesmo a criminalização da homofobia.

Ouvir todos os lados da polêmica e entender cada um de seus desdobramentos pode até não acabar com o preconceito ou mudar a lei e a sociedade que ela deve "proteger", mas certamente fará com que os contra e os a favor saibam exatamente por que estão do lado da trincheira em que estão. Não se trata apenas de conhecimento do assunto, algo que passa ao largo da verdade e apenas reflete consenso: é preciso raciocinar sobre todos os aspectos da questão, para que se comece a compreender concretamente tudo o que o tema envolve e se chegue mais perto de alguma verdade possível sobre ele (verdade que não está, exclusivamente, em nenhum dos lados desse debate). Sem isso, haverá apenas um desfecho possível para essa discussão: o radicalismo ignorante e o obscurantismo preconceituoso continuarão eternamente a correr nas veias de todos - e perigosamente em direções opostas.
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